Acabei de receber uma ligação da minha irmã. Que coisa, é difícil isto, de ser irmã mais velha. Nunca achei que pudesse passar por uma situação dessas.
Desde quando eu era pequena, eu não me dava bem com minha mãe e isto sempre foi muito complicado. Na infância, na adolescência e agora. Sempre brigávamos, seja por não fazer a lição de casa, por não lavar a louça ou por chegar tarde em casa, ela sempre vinha e fazia uma furacão no copo d'água. E como ela dizia: "Entrava por um ouvido e saia pelo outro". Eu amo meus pais. Infelizmente nunca tive a coragem de dizer isto, o que me magoa muito, mas eu os amo. Sou eternamente orgulhosa e grata pela educação que me deram, e é a base da minha postura de hoje.
Um dia, minha mãe me disse: "Eu não confio em você. Eu nunca mais vou confiar em você" Isso me marcou demais. Não lembro exatamente sobre o que aconteceu, mas não acho que era algo grave. Enfim, depois deste dia eu simplesmente desisti. Desisti de agradar, de contar minha confidencias (que já não contava mesmo), de ajudar, de fazer ficar tudo bem. Lembro que em uma das discussões eu disse: "Mãe, eu queria ir num psicólogo" (eu tinha uns 11 anos), e ela respondeu: "Psicólogo para que? O seu problema é comigo! Você e eu que tem que resolver".
Há mais ou menos três anos, meu avô (pai da minha mãe) faleceu. Ele teve dois derrames por conta do cigarro e bebidas, e já estava muito doente. Desde então eu vim morar com a minha avó, por quem eu tenho uma enorme afinidade (amor mesmo) e fiquei por aqui. Por conta de estudar, trabalhar e ter amigos mais perto da casa dela, foi uma adaptação muito fácil. Só que eu parei de frequentar a casa da minha mãe (ela não gosta que eu a chame assim, gosta que eu diga "minha casa" - mesmo se eu nem tenho roupas lá) e isso gerou uma confusão. Discutimos novamente (feio - de até minha vó ficar chateada) e 'combinamos', ou melhor 'negociamos' de todo fim de semana eu ir para lá. E foi assim durante algum tempo. Mas tornou-se frequente eu fazer uns freelas por fora para ganhar uma grana extra, o que fez eu não ir aos finais de semana para lá.
Resultado: ela mais brava com tudo e todos.
Depois, minha mãe desenvolveu a Lúpus, uma doença rara e autoimune, que ataca as próprias células e tecidos do corpo. Sua origem é até então desconhecida, e pode afetar diversas partes do corpo, seja a pele, órgãos como coração pulmão, e até o sangue. E pesquisando sobre a doença, acabei de descobrir que portadores da Lúpus podem sofrer transtornos psicológicos como ansiedade e depressão. O que agora me faz muito sentido. Vocês vão entender o porque.
Até então, o problema era comigo. E para mim, tudo bem, era só comigo mesmo e eu lido com isto a no mínimo 20 anos.. rs Só que como disse no início, minha irmã acabou de me ligar, chorando, dizendo que brigou com a minha mãe. É a apenas a segunda vez que minha irmã me liga. Tipo, nem somos tão 'best friends' de ligar uma para a outra, e por isso achei estranho. Mas ela é minha irmã.. não trocamos confidencias (até porque eu vejo tudo pelas Redes Sociais - MUAHAHAHA), mas somos irmãs ué, e meus pais me ensinaram a nunca esquecer, brigar, ficar sem falar, ou não ajudar seu irmão, pois simplesmente ele é seu irmão. Enfim, me ligou aos prantos dizendo que tinha brigado com minha mãe, que ela não parava de falar da doença, e das contas que ela pagou, e que ela quem vai pagar para irmos para a praia, que o papai não vê que ela compra coisas para a casa, que o papai acha que ela não tem gasto, que o papai acha que ela não economiza e por isso nunca tem dinheiro guardado, que a gente não ajuda, que ela é uma péssima mãe, que ela falhou comigo e agora está falhando com minha irmã, que ninguém ama ela.
Pera! Eu ouvi isso a vida inteira! Sempre achei que o problema era comigo, mas está sendo transferida para a minha irmã? Pera aí! Com meus irmãos não. Minha irmã é muito sentimental, ela sempre contou as coisas para minha mãe e eu sempre achei legal que pelo menos ela e meu outro irmão iam ser felizes para sempre em família porque havia um diálogo. Mas não!.
Hoje eu descobri minha missão. (silêncio)
Descobri o que eu realmente vim fazer aqui, e depois disso eu vou embora em paz. Até me dói o peito em falar, mas eu nunca desejei mal nenhum para ninguém, mesmo que me tenha magoado muito, eu sempre rezo pelas pessoas que me amam, e pelas pessoas que não me amam.
Eu sei da gravidade da doença da minha mãe. E desde que eu soube, eu sempre pensei que eu não queria que 'chegasse a hora' e eu não tivesse me acertado com ela. Que eu levasse essa dor para sempre.
Esperei a vida pelo momento certo de agir, e aqui estou, a hora chegou.
Não quero de forma alguma que minha irmã sofra como eu sofri, nem que tenha péssimos relacionamentos, e que sofra bullyng (bullyng pode sofrer sim, isto amadurece a mente). Não quero que minha mãe se sinta culpada por isso. Ela não é uma péssima mãe, nunca foi, mas o estresse, os problemas com contas, as questões mal resolvidas com meu pai (que é de ficar quieto - como eu), fez com que ela distribuísse suas mágoas primeiro comigo e agora com minha irmã. Ela acha que tem que saber de tudo que estamos fazendo, com quem estamos falando no telefone, quem é fulano, quem é ciclano, e tudo isso na base da porrada! rs Na base da grosseria. Mãe tem que entender que as conversas de amigas, não são as mesmas conversas de mãe e filha. Mãe é uma coisa, amiga é outra.. os assuntos são diferentes, as ideias, ou pensamentos.. a tal da 'vibe' é outra. E que bom né. Imagina eu contar para a minha mãe que... Sabe, não dá.
Engraçado este mundo, antes os pais davam conselhos aos seus filhos, e hoje é ao contrário.
Cheguei a conclusão que o que eu vim fazer aqui é colocar esta família em ordem. Vamos 'em família' colocar os pingos nos "is" e as opiniões na mesa. Minha mãe precisa de ajuda, e eu quero ajudar.
Chega de descontar a raiva dela de problemas com a empresa, com meu pai, com uma conta que pagou, com uma conta que deixou de pagar, com o valor da gasolina, com coisas tão pequenas, nos filhos.
Queremos um basta, e que esta família volte a ser feliz e unida como sempre foi. Na alegria, na tristeza, na saúde e na doença.





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